Bate Papo com Meg!

Bate papo Literatura&Futebol Goleira Meg Seleção Brasileira
Dando sequência a coluna de bate papo do blog, aproveitando o embalo da Copa do Mundo sub-20 de Futebol Feminino que, pela primeira vez, está sendo transmitida na tv aberta, e inaugurando a ala de convidadas do L&F, conversamos com a ex goleira da seleção brasileira feminina de futebol e handebol, Margarete Maria Pioresan, ou simplesmente: Meg.

Pioneira da posição na seleção feminina do Brasil, defendeu a amarelinha por vários anos e participou com destaque de 2 Copas do Mundo: 1991 na China e 1995 na Suécia, 1 Olimpíadas: 1996 em Atlanta (EUA) e diversas outras competições.

A paranaense Meg atualmente mora na capital baiana, Salvador, e gentilmente, aceitou o convite para esse super bate papo, e vocês podem conferir a partir de agora o que rolou com o gravador ligado:

Literatura&Futebol: Em primeiro lugar, é um prazer estar falando com você Meg! A primeira entrevistada do L&F não poderia ser outra! Para começar, conta pra gente: você tem acompanhado o futebol feminino na atualidade? Se sim, quais as principais diferenças têm visto da sua época pra cá?

Meg: Bom dia Leo, obrigada pela oportunidade de poder representar o futebol feminino no seu blog. Vou procurar responder sucintamente as oito perguntas que você fez porque é bem extensa toda a história do futebol feminino no Brasil. Respondendo a primeira questão: pra mim, aqui no Brasil, não teve muita mudança da minha época pra cá! Principalmente a nível de apoio e financeiramente falando, para que as atletas pudessem praticar o futebol feminino profissionalmente. A principal mudança que vejo em relação ao Brasil, é que por conta dos campeonatos mundiais que a FIFA e o COI promovem, algumas atletas nossas já desde novas estão jogando fora do país. Então, quando tem esses campeonatos: sub-17, sub-20, elas já voltam mais preparadas. Por exemplo: tem as Olimpíadas, o mundial, os campeonatos sub-20, então essas atletas sempre estão em atividade. E por exigência da CONMEBOL, agora os clubes vão ter que fazer seus quadros de equipes femininas e vai ter a fiscalização da CBF. O Esporte Clube Vitória, por exemplo, aqui em Salvador, já tem o seu departamento de esporte olímpico e dentro dele o futebol feminino, porque ser uma modalidade olímpica. A nível mundial é óbvio que ele só tendeu a crescer, mas mesmo na minha época já haviam campeonatos organizados e com apoio, em vários países, principalmente na Europa e nos EUA.

  L&F: Como foi pra você, representar o Brasil em alto nível, como pioneira, em duas modalidades esportivas distintas?

Meg: Leo, eu comecei no handebol, que foi uma das modalidades que eu aprendi na graduação em educação física que eu cursei na Universidade Estadual de Maringá- PR. Eu nunca tinha jogado e já no primeiro ano fui para o gol do handebol, e comecei a jogar na equipe da faculdade, em seguida fui para a seleção paranaense, depois vim pro Rio e já peguei a primeira seleção brasileira que teve. Comecei a representar o Brasil e fiquei muitos anos jogando e defendendo a seleção brasileira em campeonatos Sul-Americanos, Pan-Americanos e Mundiais. Paralelamente a isso, quando eu cheguei no Rio, já comecei a jogar por conta do handebol, no gol do futebol. Primeiro nas areias representando o Radar e depois representando o Radar no campo e viajando também pelo mundo, depois também já peguei a primeira seleção brasileira de futebol e logo no início, fiquei jogando pelas duas, mas depois eu larguei o handebol porque era muito desgastante e fiquei só no futebol, com a perspectiva de defender o Brasil também em uma Olimpíada. Foi muito bom porque eu cheguei em uma Olimpíada com o futebol, mas sou muito grata as duas modalidades.

L&F: Uma realidade do nosso futebol, tanto masculino quanto feminino, é a dificuldade da maioria dos atletas em gerenciar os pós carreira. Porque você acha que isso acontece, e como a gente pode trabalhar para melhorar esta realidade?

Meg: No futebol masculino, muitos clubes hoje têm escolas dentro do próprio clube, por exemplo lá no Club de Regatas Vasco da Gama no RJ, eles têm uma escola estadual dentro do clube e eles acabam estudando, não todos né!? Mas alguns continuam estudando. A realidade do masculino de hoje é melhor, eles estudam mais do que estudavam antigamente, mas ainda existe essa lacuna no estudo no futebol feminino, mais que no masculino, porque a oportunidade que as meninas têm de jogar geralmente é em outra cidade, isso quando é aqui no Brasil, então elas acabam tendo essa visão de que vão chegar num grande clube, vão ganhar dinheiro, criam aquela expectativa e muitas vezes por falta de direcionamento da própria família, elas acabam não estudando. Tanto que uma das maiores preocupações ao parar de jogar, em uma carreira que é curta, é essa, pois se não tem qualificação, o mercado de trabalho fecha as portas e são poucas as meninas que tem oportunidade de trabalho e de ganhar um salário digno, porque ficaram se dedicando exclusivamente ao futebol. O futebol feminino ainda não tem uma aposentadoria, uma carteira assinada, apesar de que parece que agora vai mudar essa realidade. Então no geral é aquela ilusão que você vai ganhar dinheiro e vai ser famoso, e estou falando dos dois gêneros agora, aquele que consegue ganhar um dinheiro vai gerenciar uma carteira muitas vezes com ajuda de uma advogado, ou dos familiares, mas aquele que não consegue ele vai ficar pobre e com o mercado de trabalho fechado. Então eu acredito que é importante ter o estudo pelo menos até o segundo grau, e também quando está ganhando dinheiro tem que guardar, aplicar, para o futuro, porque quando terminar essa fase linda de jogar vem o famoso: “o quê que eu vou fazer agora?” Aí vem aquele vácuo, muitos ficam com depressão e partem até para bebida e drogas por não saber o que fazer. Então a dica que eu deixo é que você tem que começar a se preparar antes de sua carreira terminar, pensar o que você vai fazer e já ir se preparando, para quando chegar a hora de parar, você já estar preparado.

L&F: O que você acha que a gente precisa melhorar na formação das nossas atletas para que a gente possa fortalecer ainda mais o futebol feminino brasileiro?

Meg: A formação escolar tem que ter, paralelamente aos treinamentos nos clubes, tem que haver o estudo. Ter a visão que o futebol passa rápido e se eu tiver sucesso na minha carreira tenho que gerenciar, seja aqui no Brasil ou lá fora, tem que guardar dinheiro para depois conseguir se manter até o final da vida, seja aplicando ou fazendo negócios. Tem que haver a cultura de que a educação tem que ser levada para dentro do campo e também que a mídia se interesse mais em passar os jogos aqui no Brasil, porque os Mundiais ou Olímpiadas, passam na TV, mas ainda é pouco! e não digo para passar todas as partidas como o masculino, porque eles têm centenas de anos a frente do futebol feminino. Além disso, o futebol deve ser atrativo, ser bonito, ter o futebol arte que a gente tem, mas tem que ter preparo físico e tático dentro dos clubes, para ele ser atrativo e levar as pessoas para assistir no campo essa modalidade e interessar também os patrocinadores, para que se torne rentável para que está patrocinando e bonito para quem está assistindo, porque ninguém vai a um jogo de futebol para ver espetáculo ruim. E o que temos hoje é que muitas meninas têm que pagar o próprio lanche, comprar a sua chuteira do próprio bolso, uniformes caídos e um campo de várzea muito esquecido. Então tem que melhorar muito essa parte, porque enquanto não melhorar isso, o futebol feminino não vai para frente.

  L&F: você acha que o futebol feminino deveria ser mais explorado na literatura brasileira?

Meg: Acho que sim Leo! Alguns jornalistas já poderiam começar a abordar esse assunto, já tem bastante história para isso né!? Temos muitas referências mundiais, craques de várias gerações e atualmente também temos a Marta, que poderia servir para abordar esse assunto. Faz pouco tempo a Sissi lançou um lá nos Estados Unidos, ela está lá fora desde o começo dos anos 2000, e o livro que é de autoria dela está sendo muito bem vendido e ela em breve e estará por aqui, inclusive na Bahia, e documentar tudo isso é muito importante. Aqui no Brasil não temos praticamente nada em relação a esse tema.

L&F: Aproveitando o gancho da última pergunta, diz aí: um livro sobre a sua brilhante trajetória, já surgiu o convite, ou já pensou em escrevê-lo? E claro, conta pra gente uma história, que com certeza não ficaria de fora!

Meg: Algumas pessoas lá no Paraná já tiveram a intenção, mas não foi concretizado, eu larguei do assunto, não tenho interesse, pelo menos no momento, de escrever, mas pode ser que um dia eu venha a fazer isso. Já as histórias: teve o mundial da Suécia e eu defendi um pênalti da número 10, que foi eleita a melhor do mundo no mundial subsequente, eu comecei a pular do lado da trave e isso ficou bastante marcado nas imagens de tv, além disso eu quebrei o meu dedo mindinho da mão direita nessa defesa, mas continuei jogando e só senti dor mesmo quando eu voltei ao Brasil, já no avião o dedo começou a latejar e eu sabia que tinha fissurado. Anos depois fazendo uma transmissão numa televisão, o comentarista levou o filho para dentro do estúdio e eu contei a história para ele, aí o filhinho dele arregalou os olhos e começou a olhar para o meu dedinho aí eu levantei o dedo, ele estava atrás da gente no estúdio pequeno e ele ficou com os olhos arregalados no meu dedo quebrado, essa é uma história que marcou bastante, e uma outra foi nas Olimpíadas, quando a China disputou a final contra os EUA, a equipe estava no mesmo prédio que a gente na vila olímpica e quando elas chegaram, foram no andar de baixo para lavar as roupas delas nas máquinas e aí começaram a tirar a roupa da bolsa e tiraram também as medalhas olímpicas de prata, eu fiquei encantada com a simplicidade delas e pedi para por uma medalha no peito, e elas deixaram, umas delas me entregou a medalha e colocar aquela medalha olímpica no peito, também me marcou bastante!

L&F: Na sua opinião, qual o papel de jogadoras históricas, assim como: você, Marta, Pretinha, Sissi entre outras, para as meninas que sonham em ser jogadoras de futebol?

Meg: Falando por mim, uma opinião de quem já passou por experiências dentro de equipes no nacionais, internacionais e também na seleção, dentro do possível quando tenho contato com elas eu falo o quanto o estudo é importante, para elas não largarem o estudo, e tudo aquilo que te falei anteriormente, porque o futebol feminino é uma modalidade ainda que não traz uma segurança financeira, com algumas exceções claro, aqui dentro do Brasil ou fora a maior parte ainda não tem essa estabilidade. Ter a consciência de que a carreira é curta, se comportar quando for fazer o espetáculo, seguir as regras, ter conhecimento da história do futebol feminino, para quando tiver que falar alguma coisa, em uma imprensa televisiva ou em um jornal, falar bem! A qualidade no posicionamento também é muito importante. Enfim, não tem muito segredo não, como qualquer atleta, você tem que se preparar para o futuro, porque no esporte você não sabe o dia de amanhã. Fazer com lealdade, com entrega, para poder sempre valorizar a modalidade, e acrescentar para o futuro também, para que quando você parar fazer também das suas histórias com lisura de comportamento e dedicação vai também somar até como reforço da modalidade futuramente. E se cuidar bastante, porque quando você está em competições você sempre tem que estar se preparando: dormir, alimentação, a saúde é importante para você sempre esteja apta a entrar no campo e fazer seu papel como atleta.

L&F: E pra fechar com chave de ouro, indica aí pra gente um livro sobre futebol que você curta!

Meg: Confesso que atualmente eu não estou lendo nenhum, na verdade o livro da Sissi que ela lançou recentemente nos EUA, ainda não chegou, mas assim que eu tiver a oportunidade eu vou ler. Um livro sobre futebol que de vez enquanto eu dou umas folheadas, é o livro da Mia Hamm: “Go for the goal”, e fala toda a experiência dela que foi uma grande atacante e que várias vezes jogamos contra, além disso ela ganhou o prêmio de melhor jogadora algumas vezes. É um dos meus livros de cabeceira, um livro de auto ajuda em que ela fala da sua história e engloba também o futebol feminino. Conheci esse livro quando fui fazer uma clínica nos EUA e o encontrei numa livraria, folheei o livro, gostei e acabei adquirindo. Ele tem uma foto do primeiro campeonato mundial oficial na China e eles colocaram uma foto em que eu apareço: tentando fazer uma defesa em uma disputa de bola com a Mia Hamm e a Michele Wicker, que foi uma fantástica meia de campo, canhota, onde elas estavam fazendo uma jogadinha e eu fui no pé de uma delas, acho que foi da Mia, que tocou de calcanhar para Michele. É um livro que tenho de cabeceira, mas também procuro ler os livros de biografia feminina. Eu lia muito na minha época de professora de educação física, li vários livros de futebol, até para poder da aula. Mas atualmente é isso aí! De vez em quando é que eu dou uma olhadinha em uma coisa ou outra que sai da internet. Valeu, Leo! Espero que você consiga pegar algumas coisas aí para seu blog, e todas as coisas que te falei são verídicas e isso eu acho importante, por isso é legal você fazer essas entrevistas com quem passou pela modalidade, porque são coisas que aconteceram e as pessoas que vão ler sabem que foi verdade. Qualquer coisa estamos aí! Um grande beijo aproveite bem que você tá no caminho certo. Um cara novo e cheio de ideias é bom para reciclar a modalidade e muito obrigada pela confiança!

P.S: Acompanhe a Meg no Instagram: @margarete_meg_pioresan

P.P.S.: Link para a compra do livro indicado pela Meg: “Go for the goal”: Clique aqui!

P.P.P.S: Link para a compra do livro que narra a trajetória da ex jogadora Sissi: Clique aqui!

Seleção feminina de futebol de todos os tempos - Trivela.
Seleção feminina de futebol de todos os tempos – Trivela.

http://trivela.uol.com.br/selecao-feminina-30-anos-onze-jogadoras-que-marcaram-a-historia-da-modalidade-no-brasil/

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